O volume bilionário de recursos provenientes dos royalties do petróleo colocou Saquarema no centro de um paradoxo econômico. Enquanto a cidade ostenta o maior PIB per capita do Brasil, segundo o IBGE, parte da população ainda convive com renda baixa, serviços públicos sobrecarregados e infraestrutura incompleta. O contraste entre riqueza estatística e realidade cotidiana é visível nas ruas, nos bairros em expansão acelerada e nas reclamações de moradores.
Os números ajudam a explicar o contraste. Em 2023, Saquarema registrou o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país, segundo o IBGE: R$ 722.441,52 por habitante. O dado, no entanto, não se reflete diretamente na renda da população. Pelo Censo de 2022, o rendimento médio mensal dos moradores era de R$ 2.310, abaixo das médias estadual e nacional.
O avanço econômico impulsionado pelo petróleo acelerou o crescimento populacional. Em 15 anos, a cidade teve aumento de mais de 28% no número de habitantes, chegando a cerca de 95 mil moradores em 2025. Parte desse crescimento ocorreu sem planejamento urbano, o que gerou críticas sobre infraestrutura insuficiente, vias sem pavimentação e pressão sobre serviços públicos.

Apesar das queixas, há quem veja oportunidades surgindo com os investimentos. É o caso de Vanussa Soares Terra da Silva, de 41 anos, que após concluir um curso de capacitação oferecido pelo município abriu uma padaria no bairro rural de Vilatur. Antes dona de casa, hoje ela empreende no próprio endereço onde mora.
— Sei que muita coisa ainda falta, mas consegui mudar minha realidade. Moro em rua de terra, mas acredito que as melhorias vão chegar — afirma.
Já o artista plástico João da Motta, conhecido como Mulambö, chama atenção para a falta de planejamento de longo prazo. Segundo ele, equipamentos públicos novos nem sempre conseguem funcionar adequadamente por falta de profissionais, especialmente na educação.
— Existem escolas e creches modernas, mas que não têm professores suficientes. Há convênios com faculdades privadas, mas não se discute a criação de uma universidade pública ou municipal — avalia.
Estudo do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro (IERJ) mostra que o PIB per capita de Saquarema cresceu quase 1.400% entre 2010 e 2023, enquanto o estado e o país tiveram avanços muito mais modestos. O levantamento também aponta que quase metade dos empregos no município é informal, reflexo da falta de atividades produtivas diversificadas.
— O município depende muito dos royalties e gera poucos empregos formais. Isso traz fragilidade econômica — analisa o economista Henrique Rabelo, um dos autores do estudo.
Na educação básica, houve avanços. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) das escolas municipais praticamente dobrou entre 2005 e 2023, embora Saquarema ainda fique atrás de outras cidades da Região dos Lagos.
A arrecadação com royalties saltou de R$ 5,8 milhões em 2010 para cerca de R$ 2 bilhões em 2024. Especialistas alertam, porém, para o risco da dependência excessiva desses recursos.
— O petróleo não é infinito. Sem uma estratégia de desenvolvimento econômico, a cidade pode enfrentar dificuldades no futuro — alerta o economista Mauro Osório.
Segundo dados da prefeitura, quase 80% das despesas executadas em 2024 tiveram origem nos royalties. A gestão municipal afirma que trabalha para reduzir essa dependência e cita investimentos em educação, saúde, turismo e infraestrutura como caminhos para diversificar a economia.
Na prática, moradores ainda sentem gargalos. Na saúde, a ampliação de hospitais não tem sido suficiente para atender à demanda. Aline da Costa Neto, de 38 anos, relata longas esperas por atendimento e dificuldade para marcar consultas especializadas.
— Fiquei horas aguardando na emergência e exames demoram meses. Isso ainda precisa melhorar — reclama.
A prefeitura anunciou a previsão de um concurso público para este ano, com quase 1.800 vagas, principalmente nas áreas de saúde, educação e segurança.
Outro ponto sensível é o saneamento. Moradores e representantes de associações relatam despejo de esgoto em valões e canais, inclusive na ligação entre a Lagoa de Saquarema e o mar. As concessionárias responsáveis afirmam que o abastecimento de água é quase universal, mas a cobertura de esgoto ainda está em expansão e deve ser ampliada nos próximos anos.
Além disso, há críticas sobre obras realizadas sem consulta popular e o aumento de construções irregulares, especialmente em áreas ambientais sensíveis. A prefeitura afirma que intensificou a fiscalização e realizou milhares de embargos nos últimos dois anos, utilizando monitoramento por imagens de satélite.
Entre avanços visíveis e desafios persistentes, Saquarema vive um momento de transformação acelerada, impulsionada pela riqueza do petróleo, mas ainda em busca de um modelo de desenvolvimento que consiga distribuir melhor seus efeitos no dia a dia da população.
Com informações do Extra

