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Leitura: Polícia investiga cerca de 300 casos de crimes sexuais virtuais no RJ; 15 vítimas são crianças
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Polícia

Polícia investiga cerca de 300 casos de crimes sexuais virtuais no RJ; 15 vítimas são crianças

Redação Manchete
Última atualização: 29/09/2025 09:14
Por Redação Manchete 9 Min de Leitura
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O número de casos de crimes sexuais virtuais no Rio de Janeiro chegou a 290 no primeiro trimestre de 2025, com 95% das vítimas mulheres. Do total, 43 casos envolveram menores de idade.

Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, 15 casos tiveram como vítimas crianças com menos de 14 anos. As estatísticas são do Instituto de Segurança Pública (ISP).

Homem é investigado por vender imagens íntimas de namorada de 13 anos

Um dos casos investigados é de um homem preso em janeiro deste ano por possuir no celular imagens pornográficas da namorada, então com 14 anos. Segundo a polícia, no entanto, as imagens já eram feitas desde que ela tinha 12.

A Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav) investiga se ele lucrava com a venda das imagens íntimas em grupos de aplicativos de mensagem.

Em agosto, a reportagem publicou duas reportagens com dados que indicavam um aumento de 1.200% nos casos no Rio de Janeiro entre 2018 e 2024. Nos dados disponibilizados pelo Instituto de Segurança Pública, não havia uma separação por idade das vítimas.

O delegado Cristiano Maia, titular da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), diz que não quer criar uma sociedade do pânico, mas alerta:

Aquele autor do mundo digital, ele não tem rosto. Ele nunca vai aparecer como pedófilo. Ele vai se transverter, ele vai se se fantasiar de uma criança da mesma idade. Então, muitas vezes (o mundo digital) é muito mais perigoso do que o mundo real e a sociedade não discute isso.
A inspetora Tatiana de Azevedo Lopes é chefe do setor de depoimento especial da DCAV, responsável por colher depoimentos dos adolescentes, explicou que, muitas vezes, o silêncio já é um sinal preocupante.

“Muitos pais vêm aqui e falam assim: ‘Como eu não pude observar isso’? Ela (a vítima) não falou nada, mas disse algo, de alguma forma, através do silêncio dela.”
95% das vítimas são mulheres
Das 43 vítimas menores de idade, 41 são meninas — o que representa 95% dos casos, segundo o ISP.

A delegada Maria Luiza Machado, assistente na Delegacia da Criança e Adolescente Vítima, explicou que muitos casos em 2024 e no início deste ano tiveram como palco servidores da plataforma Discord.

Segundo ela, no mesmo ambiente em que crimes diversos eram praticados ou incentivados, havia também quem divulgasse imagens íntimas de menores de idade, a maioria meninas adolescentes, para outros integrantes do servidor.

O esquema foi descoberto durante as investigações da operação que descobriu um plano para matar uma pessoa em situação de rua:

“Conseguimos verificar dentro da nossa investigação que ele realizava a chantagem emocional com as meninas, até o momento em que elas praticavam algum ato libidinoso que era registrado, momento no qual ele passava a chantagear essas meninas a realizarem outros atos com base nas imagens já registrada desse ato anterior”, afirmou a delegada.

A DCAV é considerada referência no país no combate aos crimes sexuais contra crianças e adolescentes.

Muitas vezes, a delegacia descobre que imagens íntimas de menores de idade estão sendo divulgadas e compartilhadas a partir de ajuda de mecanismos internacionais.

“A delegacia tem acesso a arquivos em que determinados autores que são individualizados a partir do seu dispositivo eletrônico. “, explicou a delegada. Nestes casos, por vezes a vítima não precisa ser especificada, já que o foco é atuar para responsabilizar o autor do crime.

Em outras situações, a delegacia fica sabendo do caso de divulgação através do atendimento no balcão da delegacia. Nesse cenário, geralmente é porque algum parente teve acesso ao dispositivo eletrônico da vítima.

“Esse parente consegue verificar dentro desse dispositivo eletrônico que aquela criança ou adolescente em específico se tornou vítima de um da produção desse conteúdo em que ela atua como protagonista”, explicou a delegada.
Nestes casos, a vítima passa por um depoimento especial, com regras próprias para atendimento a menores de idade:

“Para evitar revitimização, a gente precisa evitar que essa criança seja ouvida mais uma vez. Então, ela precisa ser ouvida uma única vez. Além disso, evitar que a vítima tenha acesso ao autor do fato”, explicou a inspetora Tatiana Azevedo.
Maria Luiza Machado também lembrou que o consumo e compartilhamento de imagens e vídeos com pornografia envolvendo menores de idade é crime.

“Todas as condutas relacionadas ao aliciamento, a produção, ao armazenamento, à venda, a compra, todas essas condutas elas são tipificadas”, pontuou.

‘Sextorsão’ e estupro virtual

As autoridades ouvidas na reportagem também alertaram para o aumento de casos de “sextorsão” e estupro virtual.

Sextorsão é a utilização de informações, fotos, vídeos de teor sexual para constranger a vítima a fazer algo mediante ameaça de divulgação desse conteúdo.

De acordo com o código penal, o estupro virtual é caracterizado pela coação à prática de atos libidinosos por meio de violência psicológica, mesmo sem contato físico direto:

“O autor consegue, a partir de uma invasão de dispositivo, uma imagem íntima de uma adolescente. E ele passa a exigir que ela pratique atos libidinosos nela mesma, através da inserção de objetos ou qualquer ato libidinoso nela mesmo. Isso é um estupro virtual”, disse o delegado Cristiano Maia.

As investigações da delegacia apontam diversos casos desse tipo nos últimos dois anos, principalmente na plataforma Discord e no aplicativo de mensagens Telegram.

“A gente conseguiu constatar inúmeras videochamadas com atos criminosos, envolvendo adolescentes que caracterizaram o estupro virtual, além do induzimento a automutilação, praticamente todos também envolvendo meninas”, relatou a delegada Maria Luiza Machado.
” A gente tem casos relacionados, tanto a promessas financeiras de PIX, às vezes por pessoas desconhecidas. É uma pessoa num grupo do Telegram que te aborda e fala: ‘Me manda um vídeo, não precisa mostrar o seu rosto e eu te dou um PIX’. Só que isso torna o adolescente refém”, avaliou a juíza Camila Guerin, que já atuou na Vara Especializada em julgar crimes contra crianças e adolescentes no Tribunal de Justiça do Rio.

Culpa, vergonha, medo, insegurança são alguns dos comportamentos mais presentes em menores de idade vítimas de violência sexual.

A inspetora Tatiana de Azevedo Lopes explica que os impactos variam conforme a faixa etária:

“Crianças que às vezes já estavam falando, podem regredir. Crianças que já estavam sem a chupeta e a mamadeira, podem voltar a ter essa vontade de ter a chupeta e a mamadeira ou de usar para aplacar uma ansiedade”, disse ela.

“Para os adolescentes, os efeitos são muito mais devastadores. Muitas vezes eles se recolhem, porque socialmente existe todo um julgamento como se eles tivessem permitido que aquilo acontecesse”, acrescentou a inspetora.
Tatiana conta que realizou o depoimento especial de uma menina que permitiu que um adolescente com quem se relacionava filmasse um momento íntimo deles. Porém, o problema foi a divulgação dessas imagens. O caso foi registrado na Dcav.

“Ela não gostou porque ela se sentiu traída, envergonhada e exposta perante ao meio que ela pertence, ao colégio que ela estuda”, contou.

O delegado Cristiano Maia reforçou a importância da atenção dos responsáveis por crianças e adolescentes:

“Quando a Dcav age, é porque o crime já ocorreu. O trauma já está ali. A dor da vítima já está ali. Então, é muito importante que cada responsável, que cada pai, tenha essa noção, essa ideia da responsabilidade, de cuidado, de atenção, de carinho com suas crianças e com os seus adolescentes”, finalizou o delegado.

Com informações do g1

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