“Neste ano, eles vão estar em festa com a família no Natal, no Ano Novo. E nós, vamos comemorar o que? É muito triste passar pelo que estamos passando e ninguém faz nada, absolutamente nada”. O desabafo é de Valquíria Sampaio, avó do pequeno Davi Freire Zerbone (foto), de 4 anos, que morreu após a explosão de uma lancha em Cabo Frio há seis meses. Ele está entre as vítimas de três acidentes parecidos, registrados num período de cerca de 40 dias. Quase 200 dias após os registros, nenhum responsável pelas lanchas ou pelos passeios foi punido. Nem a Marinha, nem a polícia civil divulgaram os resultados das investigações. As vítimas não receberam indenização. E a regulamentação dos passeios náuticos com lanchas não saiu da Câmara e não foi sancionada. Tudo isso, a 10 dias do início da alta temporada na Região dos Lagos.
O primeiro acidente foi registrado há sete meses, no dia 10 de maio, no Canal do Itajuru, na altura do bairro da Passagem. Seis pessoas ficaram feridas, entre elas, uma família de turistas de Minas Gerais, incluindo duas crianças. A família passou 48 dias internada no Rio de Janeiro antes de voltar para a cidade mineira de Itaguara. Um mês depois, uma lancha pegou fogo perto da Ilha dos Papagaios, sem feridos graves. E no dia 17 de junho, foi registrado o caso mais grave. A explosão de uma lancha na Ilha do Japonês feriu 11 pessoas. Além do pequeno Davi Zerbone, o empresário Aleksandro Leão Vieira (foto), de 36 anos, também não resistiu e morreu. A mãe de Davi, grávida de 3 meses na época, também estava entre as vítimas.
Hoje, Letícia Sampaio, a mãe de Davi, ainda precisa de tratamento médico e psicológico. Ela se recupera, após ter queimaduras em 75% do corpo. Ela deu a luz a uma menina há menos de um mês. Ela se chama Cecília. Mãe e filha passam bem. “Ninguém nos procurou para oferecer ajuda. Estamos bancando todo o tratamento médico com nosso esforço. Nem se quer tiveram empatia pela dor que a gente tem. Vergonhoso isso ocorrer num lugar tão lindo”, disse Valquíria, mãe de Letícia. “Meu neto, o pequeno Davi, só foi mais um número nas estatísticas”, desabafou.

A Marinha informou que o três casos ainda estão em investigação e não deu prazo para a conclusão. Em julho, numa audiência na Câmara, havia prometido divulgar as causas dos acidentes em 90 dias. A Polícia Civil também informou que as investigações continuam e não deu prazo. Nenhum responsável foi apontado até o momento.
Os acidentes colocaram em cheque, também, a legislação em vigor sobre passeios náuticos em Cabo Frio. Na época, os passeios de lancha e outras atividades comuns, como banana boat, não tinham regulamentação. E ainda continua. O projeto que regulamenta o setor foi elaborado, mas ainda não está em vigor. A prefeitura informou que enviou o projeto à Câmara e que aguarda a aprovação para colocar a lei em vigor.
A Câmara informou que o projeto retornou da Comissão de Redação Final com parecer favorável no último dia 5. Em seguida, de acordo com os trâmites legais, serão recolhidos os autógrafos para que o documento seja encaminhado a sanção do Executivo. Mas também não deu prazo. A Câmara disse ainda que já está em vigor outra medida, que regulamenta a travessia de passageiros entre os bairros Passagem, Ogiva e Ilha do Japonês. O documento foi aprovado em outubro e elenca critérios a serem atendidos pelas embarcações que prestem este tipo de serviço, tais como registro na Capitania dos Portos; estar em boas condições de navegabilidade, higiene e segurança; dispor de equipamentos de segurança para cada passageiro, incluindo colete salva-vidas, boias, extintores de incêndio e caixa de primeiros socorros; e ter a capacidade de passageiros compatível com o tamanho e tipo de embarcação.
Enquanto o poder público não toma providências, os empresários do setor se mobilizaram e durante os últimos meses realizaram capacitações de envolvidos nos passeios turísticos de lanchas. “Quanto aos empresários e donos de embarcações, foram feitas capacitações para os condutores e medidas preventivas estão sendo feitas. Em parceria com a Marinha, o conselho de assessoramento tem sido bem efetivo e orientado à comunidade marítima sobre as normas e procedimentos a serem adotados e suas consequências”, disse Emerson Paiva, presidente da Associação de Turismo Náutico de Cabo Frio.

